A circulação de quatro versões de uma carta atribuída a Flávio Bolsonaro, divulgada em 30 de outubro de 2026, permite examinar como a linguagem pode ser usada para reivindicar autoridade política fora do âmbito dos resultados eleitorais. Uma das versões iniciais se autodenominava "verdadeiro presidente eleito do Brasil"; nas versões posteriores o título foi alterado para "líder do Brasil", demonstrando uma tentativa de construir uma identidade institucional sem respaldo nas condições formais de mandato.

Além das mudanças de texto, duas versões apresentavam brasões diferentes: a primeira exibia a inscrição "Estados Unidos do Brazil", remetendo a uma denominação histórica, enquanto a segunda utilizava o brasão oficial da República Federativa do Brasil. O uso do símbolo estatal confere ao documento um aspecto de oficialidade, ainda que a autoria e a intenção das cartas não estejam formalmente confirmadas.

O artigo recorre a teorias da linguagem, como os atos de fala de Austin (1962) e a semiótica de Charles Sanders Peirce, para argumentar que tais enunciados criam uma "distopia linguística", na qual o discurso político tenta instituir simbolicamente uma realidade que não corresponde às condições institucionais vigentes. Essa análise destaca o risco de confundir a representação institucional da República com a autopromoção de um indivíduo que já foi derrotado nas urnas.